Textinho em homenagem a todos os que vivem a vida a dois!!!
- Cláudia, amor, amanhã é seu aniversário!
- Pois é, amor, mais uma primaverinha!
- Lindona, me ajuda vai, eu sempre erro nos presentes e dessa vez eu queria comprar alguma coisa que você quisesse muito, de verdade.
- Que amor, Sérgio, que lindo. Brigadu!!!
- Então, fofa, o que você quer?
- Um ralador.
- Um ralador?
- É, um ralador.
- Desculpa, amor, eu sou péssimo nessas coisas. É tipo um aparelho de ginástica, alguma coisa assim?
- Não, Sérgio, amor, é um ralador tipo ralador.
- De cozinha?
- De cozinha.
- Benzinho, amor, Claudinha, acho que você não entendeu muito bem a minha pergunta.
- Não entendi, amor?
- Não, chuchuca, eu quero saber o que você quer ganhar de presente de aniversário, uma coisa pra você, sabe, não uma coisa pra casa.
- Eu entendi, Sérgio, chuchuco, e achei tão fofo, tão lindinho...
- Então, o que você quer, benzinho?
- Um ralador, amor.
- Mas um ralador, Cláudia? Isso lá é presente?
- Por quê? Você acha que eu não sei o que é presente ou não sei o que é bom pra mim?
- Não é isso, fofura, você sabe o que é bom pra você, amor, mas que diabo de presente é esse? Eu aqui, cheio de boa intenção, romantismo e essa baboseira toda que mulher gosta e você pede um ralador? E onde eu vou achar um ralador, Cláudia? Onde? Sem falar que eu vou responder o que pra sua família e pro pessoal do departamento quando me perguntarem o que eu te dei de presente? Um ralador? É isso que eu vou responder, Cláudia? Não podia ser um microondas? Um exaustor, uma geladeira frost free? Qualquer outra coisa de cozinha...
- Não é qualquer coisa de cozinha, Sérgio, é um ralador. Ra-la-dor. Você sabe o que é isso, Sérgio? É aquele negócio de alumínio que a gente usa pra ralar comida, sabe. O nosso está um caco. Foi, já deu. A alça quebrou nem sei há quanto tempo. Uma alça branca, você lembra dela, Sérgio? Não, é claro que não lembra. Você não lembra se a gaveta de cueca é a primeira ou a terceira do seu armário, como é que você vai lembrar da porcaria da cor da alça do ralador da cozinha, Sérgio? Desde que a alça quebrou, o ralador ficou bambo. Você já ralou uma cebola nele, Sérgio? Já tentou? Um limão, uma cenoura, um repolho? Fica escapando da mão e faz aquele barulho de lata torta quando uma parte desentorta sozinha. Sem falar que qualquer coisa ralada fica meio marrom, de ferrugem. Se bem que umas manchinhas podem ser resto de comida. Sujeira, Sérgio, sujeira. É isso que você quer comer? Eu não quero. Ah, e quero um ralador desses de um lado só. Quadrado igual o nosso só serve pra ocupar espaço e atrapalhar na hora de lavar. Pra quê quatro tipos de lâminas? Nunca vi alguém usar mais que duas. Aquela de fatiar, então? Nunca vi mesmo, nunquinha. Você já usou o lado de fatiar do ralador, Sérgio? Não. Você nunca usou um ralador, você nem sabe o que é um ralador, Sérgio, porque você não enxerga um palmo na frente do umbigo. Você não enxerga e acha que eu não enxergo também. Você me acha incapaz, Sérgio, até de escolher um presente pra mim. Você acha e pode continuar achando. Você pode até me dar qualquer outro presente. Mas você me perguntou o que eu quero e eu respondi. Quero um ralador, entendeu, amor, um ralador. Quer que eu escreva num papel, Sérgio? Quer amor? Era essa ajuda que você queria de mim?
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