- Por que vocês brigam?, minha avó perguntou.
- Pelo copo de água.
- O quê?
- É por isso que os casais brigam, vó.
- Por um copo de água?
- E pela chave virada na porta, pela pilha do controle
remoto da televisão, pela última fatia de pão. Tem divórcio que acontece por
causa do papel alumínio na tampa do pote de requeijão. É pelo copo de água que
começam as brigas, as monumentais, as briguinhas, as brigas de todo dia. Você
nunca reparou? É assim:
-
Janete, você viu o meu copo d’ água?
-
Não Alfredo, eu não vi.
-
Mas eu deixei aqui na beirada da escrivaninha.
-
Não vi.
-
Tem certeza? Foi logo depois de pegar o boleto
do condomínio na portaria. Peguei o
elevador, entrei em casa, passei na cozinha, peguei o copo de água, deixei o
boleto na caixa bege, vim para a sala, deixei o copo na beirada da
escrivaninha, fui no banheiro e quando voltei não estava mais aqui.
-
Tem certeza que deixou na beirada da escrivaninha?
-
Tenho. Tem certeza de que não viu?
-
Tenho. Por quê? Acha que eu peguei o seu copo de
água e escondi?
-
Não, claro que não.
-
Ah, bom.
-
Mas é que só tá a gente aqui e eu não peguei, eu
deixei aqui.
-
Você deve ter colocado em outro lugar sem
perceber, Alfredo.
-
Não, Janete, eu tenho certeza, deixei aqui.
-
Então vai ver que o copo andou sozinho.
-
Você tá curtindo com a minha cara?
-
Não, claro que não, mas por que você sempre tem
que achar que a culpa é minha?
-
E por que eu não posso ter as minhas coisas nessa
casa? Minha própria casa e não posso ter um simples copo de água, não posso ter
nada, porque tudo some.
-
Pensa um pouco, Alfredo, sempre que somem,
geralmente foi porque você colocou em outro lugar e não sabia. Lembra do
talquinho? Você jurou que tinha deixado na pia do banheiro e estava dentro da
sua gaveta de meia.
-
Pensa bem, Janete, geralmente quando as coisas
somem nessa casa é porque você coloca em qualquer lugar. Pra você não tem
problema guardar o pedaço velho de um pão de queijo junto dos panos de prato.
-
Você está me chamando de porca?
-
Não, não é isso, Janete, claro que não.
-
É sim, eu sei, Alfredo, você acha que eu não sou
boa dona de casa, você acha que eu não sei cuidar das coisas direito, que eu
não me organizo, que eu confundo as coisas, que eu não sei tomar conta da casa,
que eu não sou uma boa mulher, uma boa mãe, que eu sou péssima companhia, tudo
bem, Alfredo, você tem razão, sou isso mesmo. Aliás, não sei porque você está
comigo, no fundo, você não me ama, está comigo porque acomodou, você ama a
Julieta, sua namoradinha da segunda série do grupo, você devia era ter casado
com ela e quer saber, pode ir embora se quiser, eu me viro sozinha, pode voltar
pra casa da sua mãe. Tudo bem, eu vou entender, tudo bem, você não me ama
mesmo. Acabou, Alfredo, acabou. Não dá mais.
-
(...)
-
Janete...
-
Oi, Alfredo.
-
Eu só perguntei do copo de água.
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