“De novo”, eu dizia ao final das histórias que contavam para
mim antes de dormir. Não cansava de escutar,
pela milionésima vez, Os Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, e
tantas outras que povoaram meu universo infantil. Eram parte da minha
realidade. Uma realidade inventada e, muitas vezes, mais concreta que qualquer
outra. Eu tinha medo do lobo. Tinha medo de ir ao banheiro à noite porque a
bruxa da branca de neve podia surgir por debaixo da cama. Lembro de ter chorado
algumas vezes no escuro, sozinha. Fiz xixi no colchão. Tive vontade de pedir
ajuda. Não pedi. Eu tinha medo, mas ainda assim era menor que o fascínio que as
histórias proporcionavam em mim.
Um medo que passou. Foi. Sumiu. Pelo menos há muito tempo
não estou nem aí para o lobo mau e nem paro para pensar na bruxa quando me
levanto de madrugada. Não coloco a mão
no fogo quanto à sua existência, mas já não me metem medo. Hoje, meus medos são
outros, talvez maiores e mais profundos, e por mais difícil que às vezes possa
parecer, sei que consigo vencê-los assim como venci os fantasmas da minha
infância. Fantasmas que estão deixando
de existir.
Os canais de desenhos da TV oferecem o conforto de poder
deixar seu filho assistir à televisão sabendo que tudo será bom, educativo e
politicamente correto. Politicamente correto demais, esse é o problema. Na
história da Chapeuzinho Vermelho o lobo não engole a vovó viva, nem é morto
pelo lenhador e muito menos tem sua barriga aberta à faca para resgatar a vovózinha
viva e inteira. Na bela animação do canal de TV, o lenhador sai correndo para
assustar o lobo, que aprende a lição e, ao final, todos festejam ao redor de um
bolo confeitado. Felizes, sorridentes e amigos para sempre.
Certa vez ouvi uma frase que dizia mais ou menos assim: “Não
devemos ensinar às crianças que os monstros não existem. Eles existem. Devemos
ensiná-las como derrota-los”. E é isso
que falta não só nos desenhos e livros infantis, mas em praticamente tudo hoje
em dia: sob a bandeira do politicamente correto a vida está ficando no meio
termo, na zona de conforto onde não há monstros para derrotar. A necessidade de
ser politicamente correto tem contribuído para reduzir a capacidade – ou coragem
– de refletir, buscar respostas, superar, pensar e expor os pensamentos, de ser
diferente. Ser politicamente correto, no sentido que o termo tem sido usado,
significa ter a mesma opinião do que é considerado politicamente correto
(considerado por quem?), como se isso, apenas isso, definisse a retidão de uma
pessoa. Como se integridade, caráter, respeito, generosidade e outra infinidade
de características não tivessem importância.
Não estou aqui defendendo o politicamente incorreto nem o
mau. Muito pelo contrário. Quero que meus filhos aprendam a respeitar os outros
e o mundo em que vivem. Acredito que, assim, não irão ofender ou agredir as
pessoas nem o planeta. Mas não quero que tenham medo de pensar, discordar e,
muito menos, que lhes falte força para enfrentar os próprios medos e o que for
preciso ao longo da vida. Quero que
sejam boas pessoas, mas que sejam livres para pensar e sentir e que não tenham
preguiça disso. E é possível, sim, ser essas
coisas todas ao mesmo tempo, ou tentar sê-las.
Vou continuar ligando a TV para meu filho pequeno com seus
desenhos lindos e educativos. De todo
modo, achei por bem resgatar um contraponto e fui à livraria. Demorou, mas
depois de folhear uma infinidade de livros infantis com lobos arrependidos e bonzinhos,
encontrei uma versão dos Três Porquinhos com direito à lobo muito malvado e um
enorme caldeirão de água fervente. Um trágico fim, mas um bom ponto de partida.
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