terça-feira, 20 de agosto de 2013

Não há mais lobos como antigamente

“De novo”, eu dizia ao final das histórias que contavam para mim antes de dormir.  Não cansava de escutar, pela milionésima vez, Os Três Porquinhos, Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, e tantas outras que povoaram meu universo infantil. Eram parte da minha realidade. Uma realidade inventada e, muitas vezes, mais concreta que qualquer outra. Eu tinha medo do lobo. Tinha medo de ir ao banheiro à noite porque a bruxa da branca de neve podia surgir por debaixo da cama. Lembro de ter chorado algumas vezes no escuro, sozinha. Fiz xixi no colchão. Tive vontade de pedir ajuda. Não pedi. Eu tinha medo, mas ainda assim era menor que o fascínio que as histórias proporcionavam em mim.

Um medo que passou. Foi. Sumiu. Pelo menos há muito tempo não estou nem aí para o lobo mau e nem paro para pensar na bruxa quando me levanto de madrugada.  Não coloco a mão no fogo quanto à sua existência, mas já não me metem medo. Hoje, meus medos são outros, talvez maiores e mais profundos, e por mais difícil que às vezes possa parecer, sei que consigo vencê-los assim como venci os fantasmas da minha infância.  Fantasmas que estão deixando de existir.

Os canais de desenhos da TV oferecem o conforto de poder deixar seu filho assistir à televisão sabendo que tudo será bom, educativo e politicamente correto. Politicamente correto demais, esse é o problema. Na história da Chapeuzinho Vermelho o lobo não engole a vovó viva, nem é morto pelo lenhador e muito menos tem sua barriga aberta à faca para resgatar a vovózinha viva e inteira. Na bela animação do canal de TV, o lenhador sai correndo para assustar o lobo, que aprende a lição e, ao final, todos festejam ao redor de um bolo confeitado. Felizes, sorridentes e amigos para sempre.

Certa vez ouvi uma frase que dizia mais ou menos assim: “Não devemos ensinar às crianças que os monstros não existem. Eles existem. Devemos ensiná-las como derrota-los”.  E é isso que falta não só nos desenhos e livros infantis, mas em praticamente tudo hoje em dia: sob a bandeira do politicamente correto a vida está ficando no meio termo, na zona de conforto onde não há monstros para derrotar. A necessidade de ser politicamente correto tem contribuído para reduzir a capacidade – ou coragem – de refletir, buscar respostas, superar, pensar e expor os pensamentos, de ser diferente. Ser politicamente correto, no sentido que o termo tem sido usado, significa ter a mesma opinião do que é considerado politicamente correto (considerado por quem?), como se isso, apenas isso, definisse a retidão de uma pessoa. Como se integridade, caráter, respeito, generosidade e outra infinidade de características não tivessem importância.

Não estou aqui defendendo o politicamente incorreto nem o mau. Muito pelo contrário. Quero que meus filhos aprendam a respeitar os outros e o mundo em que vivem. Acredito que, assim, não irão ofender ou agredir as pessoas nem o planeta. Mas não quero que tenham medo de pensar, discordar e, muito menos, que lhes falte força para enfrentar os próprios medos e o que for preciso ao longo da vida.  Quero que sejam boas pessoas, mas que sejam livres para pensar e sentir e que não tenham preguiça disso.  E é possível, sim, ser essas coisas todas ao mesmo tempo, ou tentar sê-las.

Vou continuar ligando a TV para meu filho pequeno com seus desenhos lindos e educativos.  De todo modo, achei por bem resgatar um contraponto e fui à livraria. Demorou, mas depois de folhear uma infinidade de livros infantis com lobos arrependidos e bonzinhos, encontrei uma versão dos Três Porquinhos com direito à lobo muito malvado e um enorme caldeirão de água fervente. Um trágico fim, mas um bom ponto de partida.


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