quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A história do parto...

Atendendo à pedidos das amigas leitoras, segue aqui a história do parto, que faz parte do meu livro "Mãe de Dois" (ed. Civilização Brasileira)... Não é um textinho de um parágrafo, mas, enfim, não há parto no mundo que caiba em um parágrafo!!!

"Eram 21h55 de segunda-feira, dia 20 de setembro. Eu, o Felipe e minha mãe estávamos na sala de televisão da casa dela, em Três Pontas, quando resolvemos telefonar para o Daniel, para dar boa noite. Ele ainda jurava que o irmão nasceria naquela noite. “Eu sonhei, mãe, vai nascer hoje. Se nascer, alguém tem que vir buscar eu e a tia Paula em São Paulo”, ele disse, já procurando uma maneira de faltar à aula a semana toda. Desliguei o telefone com aquele sentimento comum de mãe, do tipo “que pena, o Daniel vai ficar frustrado porque hoje não vai ser”. Tinha ido à ginecologista à tarde e o bebê não mostrava nenhum sinal de querer sair. Aproveitei que o grande momento estava distante e comi três pedaços gigantescos de pizza de calabresa e um copo de liquidificador inteirinho de vitamina de frutas. Parecia que ia explodir. Era improvável caber tanta coisa dentro de uma barriga só. Mas, enfim. Comi, telefonei para o Daniel e estava pronta para assistir com o Felipe e a minha mãe a um episódio inédito de Criminal Minds quando me deu uma vontade desesperante de tomar banho.

– Você vai perder o começo e depois vai ficar perguntando – argumentou o Felipe.
– Não tem problema, preciso tomar um banho agora, estou encalorada.


Tomei uma chuveirada, de uns cinco minutos. Demorei mais enxugando o corpo e vestindo o pijama, porque qualquer movimento era difícil naqueles dias. Saí do banheiro, aliviada, relaxada, e deitei com o Felipe na sala. Acho que foram uns três minutos, porque nem deu tempo de terminar a propaganda e voltar ao seriado. Senti primeiro uma aguinha saindo, meio molhando a calça do pijama. Nem me assustei, porque de vez em quando sentia isso. Mas, então, veio a aguaceira.


– Ai, acho que a minha bolsa rompeu – eu disse.


O Felipe levantou apavorado. Eu fiquei de pé para comprovar e não precisei falar mais nada, porque mais uma torrente escorreu pelas minhas pernas. Minha mãe foi telefonar para a ginecologista. Eu fui para o banheiro, me limpar um pouco. Depois, fui arrumar as minhas coisas. A mala do Antônio estava pronta havia um tempão, mas a minha eu tinha desarrumado e rearrumado um monte de vezes. Peguei um pijama, a nécessaire, um chinelo e um sutiã. Esperei escorrer um pouco mais de água. Troquei de roupa e coloquei um absorvente. Antes de sair, liguei o computador para postar no blog. O Felipe e minha mãe quase ficaram bravos, mas como eu é que estava prestes a parir, então, esperaram com paciência.


Vantagens de uma cidade pequena: tudo é muito perto. O hospital-maternidade fica a uns seis quarteirões da casa da minha mãe. Chegamos em dois minutos. Depois de errar a entrada, chegamos à recepção. Eu não tinha nada preparado. O único documento era minha carteira de identidade – e o número do plano de saúde anotado em um papel dobrado, porque havia uns três meses tinha perdido a carteirinha. “Moça, posso me internar e alguém trazer as coisas amanhã?” Outra vantagem de cidade pequena: fiz a internação graças ao único documento, ao papel dobrado e à boa vontade alheia. A médica estava lá me esperando. Fomos para a sala de exame ambulatorial. Até ali eu não havia tido nenhuma contração, nenhum nada. Só a água escorrendo. Portanto, previa o que ela veio me dizer depois do exame de toque. “Vamos ter que fazer uma cesárea, não tem dilatação, o colo está alto etc. etc.” Eu não sofri. Sou marinheira de segunda viagem e, por mais que tenha namorado a possibilidade de um parto normal, sabia que, depois de uma cesárea, uma cirurgia abdominal, outra de ovário e sem condições plenas, nenhum médico arriscaria a me deixar horas e mais horas em indução para trabalho de parto. “Tudo bem”, eu disse, sincera e tranquila.


Segui de maca para o centro cirúrgico. Passei pelo Felipe, por minha mãe, minha avó, minha sogra e minha tia Betina. Tive um pequeno momento de pavor. Para ir do ambulatório para a sala de cirurgia, as duas enfermeiras levam a maca por uma rampa e a única coisa que segura a maca e o paciente são a força e os anos de experiência das duas senhoras. Passou pela minha cabeça, por um segundo, a imagem da enfermeira da frente tropeçando, soltando a maca e eu indo parar do outro lado do hospital. Graças a Deus, foram só alguns segundos de pensamento, o suficiente para terminarmos a rampa e chegarmos sãs e salvas. O hospital-maternidade São Francisco de Assis, o único de Três Pontas, é bem antigo. Parece a casa da minha avó, com portas e janelas enormes, venezianas de madeira e pé-direito alto. Um ar de casa, de aconchego. Um algo a mais para os que entram e os que saem. Em São Paulo, o hospital seria moderno, superaparelhado, mas sem o colo, que ali me pareceu mais com um ninho para a chegada do meu bebê.


Quem me recebeu e me mudou de maca foi o Roberto, um amigo de adolescência, colega de escola, com quem perdi contato há anos. Ele é agora o enfermeiro da sala de cirurgia, e aquele era o seu plantão. Eu estava com medo. Até hoje minhas experiências com cirurgias não haviam sido as melhores. Muita dor, mal-estar, sofrimento. Mas alguma coisa me dizia que, desta vez, seria diferente. E foi. A anestesia foi perfeita. Não senti nada e não vomitei os três pedaços de pizza e a vitamina de frutas. Tudo correu bem. Naquela sala pequena e simples, com janela de vidraça, meu filho nasceu, às dez para a meia-noite. Veio ao mundo como vêm os bebês. Sujo, enrugado, inchado, aos prantos e ao susto. Um menino grande e forte. A pediatra o examinou, aspirou e o colocou no meu peito, perto de mim. Minha mãe, na sala de parto, chorou. Eu e o Antônio ficamos tranquilos, quietos, sentindo a respiração um do outro. Foi um instante rápido, até a doutora me avisar que precisava levá-lo ao berçário, para dar banho. Minha mãe foi junto. Eu fiquei com os médicos e o enfermeiro. Na vidraça, uma chuva forte batia. Faltou luz. Por alguns segundos – que pareceram intermináveis horas – ficamos no breu. Pensei: “Meu pai, agora vão ter que terminar de me costurar à luz de velas.” Logo o gerador do hospital entrou em ação e o escuro se desfez. Foram ainda uns quarenta minutos até tudo terminar. Saí da sala de cirurgia com frio, cansada, aliviada. A família esperava por mim. Não prestei atenção no que falavam. Só guardei o que minha avó disse:


– Seu filho, o Antônio, é abençoado. Ele trouxe a chuva.


Havia três meses não chovia em Três Pontas… As enfermeiras levaram a maca até o quarto. Na veneziana de madeira, a chuva grossa escorria."

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